O desafio da Ucrânia se acelera, mas não será simples. Uma vitória da Rússia será contabilizada pela China. O Oriente Médio muito provavelmente resultará em uma guerra ampliada contra o Irã. Difícil esperar mudanças na Venezuela, mas é muito possível que Cuba surpreenda, assim como a Bolívia, de outra forma. A grande dúvida no México e… Bachelet no Chile?
Os atentados que os EUA sofreram recentemente não necessariamente marcarão o ano que se inicia. O terrorismo não tem o mesmo ímpeto de antes; o ISIS já não existe, salvo algumas ramificações que adotam esse nome, e o agressor de Nova Orleans era um lobo solitário com possíveis problemas mentais. No entanto, essa violência faz parte da realidade da época. Está mais claro que haverá mudanças cruciais nas duas maiores guerras atuais: o Oriente Médio e a mais importante, que afeta a Ucrânia. O dado significativo será a dimensão dessas mudanças.
Nesses três territórios orbitará simultaneamente um trio que se move nos extremos: Donald Trump, que assume em 20 de janeiro; Benjamín Netanyahu, que conseguiu fortalecer seu papel como líder de Israel; e o autocrata Vladimir Putin, que completou, neste fim de ano, um quarto de século no poder.
É muito provável que a crise no Oriente Médio escale para uma guerra aberta entre Israel, EUA e Irã, visando anular suas capacidades nucleares e até mesmo enfraquecer a estrutura vertical do regime dos aiatolás. A teocracia é uma minoria armada, sem apoio popular, atravessada por conflitos sociais insolúveis, repressão brutal, inflação, desemprego e ausência de futuro.
O que dificilmente ocorrerá é que Israel avance para uma colonização dos territórios palestinos, como defendem os ministros integristas do governo de Netanyahu. Trump será menos rígido que Joe Biden com os limites geopolíticos, mas os EUA são aliados da Arábia Saudita, a potência mais influente do mundo árabe, que sustenta a solução de Dois Estados para a crise crônica do Oriente Médio.
Não se trata de predileção pelos palestinos, mas sim porque essa é a única via para evitar eternizar um conflito que impede a relação com Israel que o mundo árabe deseja. São regimes duros que não querem dar argumentos à fúria de suas populações. Os números sustentam esse realismo. Há sete milhões de árabes palestinos nessas terras, dois milhões deles com cidadania israelense. O restante se distribui pelos territórios. Vale notar que o grupo terrorista Hamas contava, antes da guerra, com não mais de 50 mil integrantes.
Foto: REUTERS
Nas prisões de Israel encontra-se Marwan Barghouti, “o prisioneiro mais importante do mundo”, segundo The Economist. Esse líder laico, respeitado no mundo árabe, é a chave, assim como Mandela foi na África do Sul, para uma solução política à crise. É nele que Washington está de olho. Trump, em seu primeiro governo, deu luz verde para a colonização dos territórios, um procedimento ilegal segundo o direito internacional. Não está claro se fará o mesmo no segundo mandato. O Irã será um alvo comum, os palestinos possivelmente não.
A Ucrânia é um desafio mais complexo, devido ao caráter existencial dessa guerra para o Ocidente. Trump fez constantes acenos a Putin durante a campanha, mas o casamento entre Rússia e China é um obstáculo inevitável.
Um apoio precipitado ao autocrata de Moscou poderia expor a nova administração norte-americana a um custo político semelhante ao da retirada do Afeganistão. Isso seria visto como um aval para que Moscou se rearmasse e continuasse seu avanço. Mas, acima de tudo, confirmaria a aposta da China, que, antes mesmo da invasão, anunciou um apoio incondicional ao Kremlin. Uma vitória da Rússia na Ucrânia seria interpretada por Pequim como um precedente para Taiwan e uma derrota ocidental.
Fora desses cenários, valem algumas perguntas:
Os migrantes serão expulsos dos EUA? Sim, mas nem mais nem menos do que nos níveis recordes promovidos por Biden.
Haverá tarifas para todo o planeta? É duvidoso. Este ano, a inflação pode voltar a subir nos EUA e, como efeito direto, também as taxas de juros, caso se avance com uma enxurrada de tarifas e o aumento do custo da mão de obra devido à perda da migração.
Um dado interessante: o novo ano pode trazer um interesse maior do que o habitual de Washington pela América Latina. Um dos motivos é o avanço direto da China em locais estratégicos do “sul global”, como o Panamá, seu novo porto de Chancay no Peru e o Brasil, o principal parceiro latino-americano do gigante asiático. O novo chanceler, Marco Rubio, é um latino-americano de origem cubana. Isso deve ter algum significado.
Cuba, Bolívia, Venezuela…
Não seria surpreendente esperar novidades impactantes sobre Cuba. O regime está se dissolvendo, incapaz de conter uma crise que provocou a maior fuga de cubanos da história. Biden, para seduzir os eleitores da Flórida, evitou reinstaurar a reaproximação com a ilha promovida por Barack Obama. Está claro que Trump irá isolar ainda mais o país caribenho, que perdeu todos os valores simbólicos para aqueles que o apoiavam. Tudo pode acontecer mais cedo do que se espera.
A Bolívia terá eleições em 17 de agosto. O país está dividido pela batalha entre o presidente Luís Arce, que busca a reeleição, e a tentativa de retorno ao poder de Evo Morales. A crise por trás dessa disputa suicida pode mobilizar qualquer figura alternativa que canalize a ira e frustração das massas. Vale a pena observar o conservador prefeito de Cochabamba, o ex-capitão do Exército Manfred Reyes Villa.
Foto: AP
Esse não é o caso da Venezuela, onde a ditadura de Nicolás Maduro, após a fraude nas eleições de 28 de julho passado, consolidou seu poder e, em poucos dias, fará uma paródia de novo mandato do autocrata, sem que a oposição ou a comunidade internacional possam impedi-lo. Esse pesadelo caribenho se prolongará, somando mais dois milhões aos 8,5 milhões de venezuelanos que já fugiram do país, um êxodo sem precedentes na região.
Em novembro, o Chile renovará sua presidência, e é improvável que haja um segundo capítulo do atual experimento de centro-esquerda liderado por Gabriel Boric, que sofreu duas derrotas consecutivas na tentativa de substituir a Constituição herdada da ditadura. Movimentos de direita emergem no país vizinho, mas também figuras centristas, como a ex-presidente Michelle Bachelet, que nega essa possibilidade, mas cuja imagem compete diretamente com o ultradireitista Juan Antonio Kast, que, vale lembrar, venceu o primeiro turno contra Boric.
No Brasil, 2025 será possivelmente o ano da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pelos golpes contra Luiz Inácio Lula da Silva – e não apenas pela tentativa de 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes em Brasília. O problema também reside nos movimentos anteriores, que comprometem o ex-mandatário devido às ações desordenadas de seus aliados, que deixaram inúmeras evidências e áudios de um plano para tomar o poder e assassinar o líder petista. Muito disso veio à tona em meados de dezembro, com a prisão do general Walter Braga Netto, ex-candidato a vice-presidente de Bolsonaro e seu ex-ministro da Defesa, em cuja residência a insurreição foi planejada.
Já no México, um enigma crescente. O impacto da política de Andrés Manuel López Obrador sobre o sistema judicial e as tarifas prometidas por Trump criam um cenário incerto. A desvalorização do peso mexicano, a maior em 18 anos, reflete esse caos, e a nova presidente, Claudia Sheinbaum, muito ligada ao seu antecessor, ainda não conseguiu reverter a situação.
© Copyright Clarín 2025
0 Comments