Crônica narrativa de missões, vitórias e dilemas públicos

A bordo de um Hércules C-130 que sobrevoa a província de Helmand, um capitão de infantaria folheia às pressas uns relatórios impressos.

Cada página traz um código QR: ao escaneá-lo, seu tablet abre um mapa onde os caminhos empoeirados piscam em vermelho, amarelo ou verde, conforme a probabilidade de encontrar artefatos explosivos improvisados.

Quem dá cor a essas rotas não veste farda; trabalha a milhares de quilômetros dali, num gabinete anódino de Denver, e se conecta à mesma base de dados que alimenta as tropas. Por trás da tela há uma plataforma chamada Gotham e, por trás de Gotham, a incógnita de quanto poder um Estado deve delegar à pontuação algorítmica da guerra.

Afeganistão, Mosul e Los Angeles: as primeiras implantações

O batismo de fogo: Afeganistão:

Os primeiros contratos da Palantir com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos pareciam modestos: licenças-piloto para que analistas forenses buscassem padrões em detonações de IED.

Em 2010, porém, o comandante do 82º Regimento Aerotransportado pediu que o Gotham fosse implantado “em forward”, dentro da base de Bagram. O resultado foi um sistema que, a cada madrugada, ingeria mensagens SIGACT, registros de patrulha e chamadas interceptadas para prever onde haveria explosões ao amanhecer.

As previsões não eram oráculos infalíveis, mas obrigavam a repensar rotas e horários. Segundo um relatório interno do Army TRADOC, as unidades que usaram a Palantir reduziram suas baixas por IED em 25% durante nove meses consecutivos. Assim, a plataforma passou a fazer parte do equipamento padrão no Afeganistão e depois no Iraque: tão onipresente quanto o colete à prova de balas, tão intangível quanto um boato de rádio.

Operações urbanas: dos becos de Mosul aos bairros de Los Angeles:

Em 2016, a batalha por Mosul pôs à prova a elasticidade do software. Os soldados do Special Operations Joint Task Force etiquetavam vídeos de drones com nomes de ruas; minutos depois, outro operador, 8.000 quilômetros a oeste, podia sobrepor os clipes a plantas de esgoto turco-otomanas. O Gotham funcionava como um “cérebro híbrido” que absorvia o caos da cidade velha e o devolvia em forma de rotas de avanço com menor risco colateral.

Nesse mesmo ano, do outro lado de um oceano, o Departamento de Polícia de Los Angeles começou a utilizar a mesma tecnologia — agora com o discreto nome de “LASER” — para identificar focos de violência armada. O algoritmo construía “caixas quentes” de 150 × 150 metros e atribuía uma pontuação de risco a indivíduos que, sem antecedentes graves, figuravam como possíveis propagadores de crimes. O projeto foi cancelado em 2020 após críticas da ACLU, mas deixou uma pergunta zumbindo nos gabinetes: quando uma arma de guerra pode ser chamada de ferramenta de prevenção comunitária?

Inteligência interagências e o NHS britânico

Inteligência interagências: a mesa oval das quintas-feiras.

Do outro lado do Potomac, toda quinta-feira, às 7h, um grupo reduzido de analistas se reúne numa sala acarpetada, livre de telefones. Ali, numa tela sensível ao toque de 90 polegadas, desfila o mesmo grafo que os fuzileiros navais usaram em Helmand e os detetives de homicídios em Chicago.

As camadas se sobrepõem: logística portuária, fluxos financeiros, conversas interceptadas com ordem judicial. Sob o polegar de um subsecretário, os nós mudam de cor ao ritmo dos temas: narcotráfico, ciberataques, pandemias.

A legenda diz “Powered by Palantir”. No entanto, a maioria dos que tomam decisões desconhece o código que prioriza uma pista em detrimento de outra. Confiam nos briefings — e no selo de “auditado” — para convencer o Presidente de que um navio petroleiro merece vigilância aérea ou de que um sinal de ransomware provém, na verdade, de um adolescente em seu quarto.

NHS COVID-19 Data Store: a saúde como exercício de segurança nacional.

Abril de 2020: o Reino Unido agoniza na primeira onda de COVID-19. Hospitais no limite de sua capacidade; estoques de respiradores mudando de hora em hora. O Serviço Nacional de Saúde assina um contrato de emergência com a Palantir para montar, em questão de dias, o NHS Data Store.


O relato interno descreve uma guerra logística: ambulâncias que compartilham telemetria em tempo real, fábricas que informam o estoque de EPI, necrotérios que atualizam taxas de ocupação. O Foundry — não o Gotham, desta vez — integra tudo num painel em que cada ponto vermelho é um leito de UTI livre ou um gargalo iminente. Três semanas depois, o diretor de operações de saúde declara que o sistema “provavelmente salvou milhares de vidas”. Os defensores da privacidade retrucam que um salva-vidas não justifica armazenar prontuários médicos em mãos privadas.

O contrato, renovado em 2022, continua alimentando manchetes e pedidos de transparência.

ICE e Ucrânia: dois usos sob escrutínio

Vigilância de fronteiras e o fantasma do ICE:

Nos Estados Unidos, a Palantir mantém dois produtos menos badalados: FALCON-SA e FALCON-TIP. Ambos permitem ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) vincular bases de dados de detenção, registros de carteira de motorista e redes sociais para localizar pessoas suspeitas de violar leis migratórias.

Uma reportagem do New York Times revelou que, entre 2017 e 2019, esses sistemas foram usados para planejar operações em massa. Defensores dos direitos dos imigrantes alegam que a ferramenta transforma infrações administrativas em alvo prioritário de detenção, confundindo terrorismo e mera irregularidade. A Palantir responde que apenas fornece software e que o uso final cabe à política pública. O debate chega ao Congresso: é lícito que um algoritmo determine a urgência de separar um pai de família de seus filhos?

Ucrânia: guerra em alta resolução.

Em fevereiro de 2022, enquanto as tropas russas cruzavam a fronteira, uma equipe de engenheiros da Palantir instalou nós classificados do Gotham para o Estado-Maior ucraniano. A plataforma absorveu imagens de satélite comerciais, posts do Telegram e manifestos ferroviários hackeados.

O inédito foi a velocidade de fusão: em menos de 30 minutos, um vídeo de drone entrava no sistema, era georreferenciado e aparecia como “evidência vinculada” à rota de um comboio. Oficiais ucranianos afirmam que esse ciclo reduziu o tempo de resposta da artilharia de horas para minutos. Moscou acusa o Ocidente de “terceirizar” sua inteligência a uma companhia. A Palantir guarda silêncio, ciente de que sua marca já figura em publicações científicas sobre “guerra algorítmica”.

Regulação europeia, dependência e ética

Transparência vs. opacidade: o pêndulo regulatório.

Em Bruxelas, o projeto de Regulamento de Inteligência Artificial inclui uma seção sobre “sistemas de propósito geral utilizados por forças de segurança”.

Várias ONGs pressionam para que a Palantir seja enquadrada na categoria de “alto risco”, sujeita a auditorias de código e limites de exportação.

A empresa contra-argumenta: abrir por completo o motor exporia táticas aos adversários. Entre a caixa-preta e o cristal total, a UE busca um ponto intermediário em que os Estados confiem e os cidadãos não temam.

As audiências são um teatro inesperado: programadores explicam hashes e grafos a advogados que mal dominam o jargão da informática. Ainda assim, a decisão final — publicar ou velar — marcará se o Gotham e o Foundry seguirão se expandindo na Europa ou se esbarrarão num muro regulatório tão firme quanto as fortalezas medievais que ainda salpicam o continente.

Defesa ou dependência?

A cada novo contrato, a empresa reforça seu papel de “infraestrutura soberana de dados”: um conceito sedutor para governos que carecem de músculo tecnológico.

Mas nos corredores do Pentágono e da OTAN surge uma inquietação recorrente: o que acontece se a Palantir aumentar os preços, mudar de mãos ou decidir não renovar licenças no meio de uma crise? A dependência estratégica — o famoso lock-in — não é apenas econômica; é tática.

Para mitigar o risco, alguns Estados desenvolvem clones internos; outros exigem depósitos de código em escrow. Enquanto isso, a Palantir assina acordos plurianuais que incluem treinamento e ferramentas “offline” para acalmar receios. O equilíbrio se mantém, frágil, graças a benefícios tangíveis: menos baixas, logística mais rápida, decisões baseadas em evidências.

Sob a lupa da ética:

Em 2023, um consórcio acadêmico analisou 2.400 documentos judiciais e concluiu que os relatórios gerados pelo Gotham são citados com frequência cada vez maior como prova em tribunais militares. Isso implica que um algoritmo influencia a atribuição de culpa? A Palantir sustenta que seu software é “lupa, não juiz”. No entanto, a linha se esmaece quando um promotor mostra ao júri um grafo multicolorido que parece apontar a culpa com traços fluorescentes.

A empresa criou um “Conselho de Responsabilidade” que inclui filósofos e ex-juízes. Seus pareceres são consultivos, jamais vinculantes. Os críticos os comparam a um comitê de revisão interno da indústria do tabaco opinando sobre nicotina.

A questão essencial permanece: pode uma corporação privada arbitrar seu próprio impacto sobre os direitos civis?

Epílogo: a fita de Möbius entre a frente de batalha e o lar:

Voltemos ao capitão do Hércules. Ao pousar em Camp Bastion, ele constata que a rota sugerida evitou o IED que explodiu a 300 metros de distância.

Horas mais tarde, em Los Angeles, um policial de patrulha lê um relatório que classifica um jovem como “ator de risco moderado” porque seu primo foi detido em Compton. E, nessa mesma noite, um médico britânico encontra um leito de UTI graças a um dashboard que se atualiza a cada 15 segundos.

Três histórias, um mesmo fio condutor: a Palantir converte dados dispersos em mapas de ação. O benefício é palpável; os riscos, também.

De agora em diante, a pergunta já não é se o Estado usará a plataforma, mas em que condições poderá continuar a usá-la sem comprometer o delicado pacto entre segurança e liberdade. É nesse fio da navalha que se escreve, em tempo real, o próximo capítulo de uma companhia que começou rastreando terroristas e acabou gerindo pandemias.