Os historiadores chamavam de Idade das Trevas a época dos primeiros séculos da Europa medieval, fortemente marcada pela escassez de fontes que permitam reconstruir a realidade desse período de forma confiável. Agora, parece que estamos diante de uma nova Idade das Trevas, desta vez digital, já que muitas URLs estão desaparecendo e, com elas, parte da nossa memória.

O profetizado apocalipse digital já chegou, e foi anunciado por um post publicado em um blog.

O título da publicação, de 18 de julho, soava bastante críptico. «Os links do encurtador de URLs do Google deixarão de estar disponíveis», declarava. Eu sei, eu sei, talvez apocalipse soe exagerado (não é exatamente um ataque de zumbis alienígenas de uma dimensão mortal). Mas a notícia me assustou. Significa que uma parte da web está prestes a desaparecer. Este – é preciso lembrar – não é um problema novo, já assistimos antes a esses efeitos de desaparecimento, mesmo quando houve projetos que tentaram conservar a informação que tendia a sumir. Há certa lógica nisso, já que o crescimento da Internet – algo que comentamos em um “paper” de pesquisa há alguns anos – é incontrolável. Naquele momento, havíamos calculado que, se alguém quisesse ler todo o conteúdo da rede, precisaria passar aproximadamente cem anos dedicado a isso, sem sair do lugar, vinte e quatro horas por dia. Também havíamos examinado a chamada “informação redundante”, isto é, as repetições dentro da Rede chegavam a 30%-40% da informação então disponível on-line.

O fim do encurtador de URL do Google

A questão é a seguinte: o Google tinha um serviço on-line que gerava versões curtas e fáceis de usar das URLs longas e incômodas, os endereços que identificam tudo na internet. URLs mais curtas são mais fáceis de rastrear e melhores para o comércio eletrônico. O Google deixou de encurtá-las em 2019, mas as URLs concisas que já havia criado continuavam fazendo seu trabalho. Você clicava em uma e ela o levava à página web correta, como deve ser.

Pois bem, isso agora é história. Na postagem publicada em seu blog, o Google anunciava que, a partir do ano que vem, todos os links encurtados serão desativados. Puf. Na internet, se a sua URL não funciona, é como se você não existisse. Você se torna impossível de encontrar. Sem um trabalhoso processo de redirecionamento, tudo o que há por trás desses links —bilhões deles, uma década inteira de conteúdo digital— se tornará inacessível. Vai desaparecer por completo.

Ora, fazer com que uma quantidade de conteúdo web se torne invisível não é o fim do mundo. Não por si só. O problema é que esse tipo de coisa continua acontecendo. E está cada vez pior. As redes sociais estão desmoronando. Os veículos de comunicação digitais estão sendo levados ao fechamento. As empresas eliminam seus produtos on-line. Os links se corrompem. Os arquivos não são encontrados. A nuvem, como alguns brincalhões já apontaram, não passa de um conceito que, na realidade, se baseia nos «computadores dos outros». E quando essas nuvens se apagam, não resta nem rastro do que guardavam.

Talvez nada disso importe muito agora. Mas vai importar. A internet se tornou o arquivo padrão da nossa história e da nossa cultura, e neste momento está em chamas diante dos nossos olhos, como a Biblioteca de Alexandria, só que pior. Pela primeira vez desde que os humanos começaram a entalhar nas rochas, estamos criando uma era sem história. Estamos prestes a entrar na Idade das Trevas Digital.

O apocalipse algorítmico já chegou e está destruindo as nossas vidas:

Quanto conteúdo da web já se perdeu

As tentativas de quantificar a dimensão do problema são desoladoras. Metade dos links nas decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos já não leva à informação citada. Uma reportagem de 2021 descobriu que um quarto dos mais de 2,2 milhões de hiperlinks no site do The New York Times estavam quebrados. Pior ainda, o Pew Research Center dos Estados Unidos estima que um quarto de tudo o que foi publicado na web entre 2013 e 2023 está inacessível neste momento, o que significa que quase 40% da web como existia em 2013 simplesmente não existe hoje, apenas uma década depois.

A destruição desses links não me preocuparia tanto se eles não tivessem substituído o que havia antes, se as salas dos museus e as prateleiras empoeiradas das bibliotecas ainda servissem como os depósitos da nossa memória coletiva. Não é que eu sinta falta dos tempos de jornais antigos preservados em microfichas, ou de tentar convencer um bibliotecário a conseguir um empréstimo entre bibliotecas internacional. Fico feliz que muitos filmes antigos estejam em streaming e que muitos livros fora de catálogo estejam a apenas um clique. Mas os arquivos e as bases de dados são mais do que lugares para guardar coisas velhas; o que conservamos define quem somos. Hoje, tanta coisa é apenas digital que, quando desaparece, deixa um vazio em nossa cultura compartilhada.

O Gawker desapareceu. O arquivo do The Awl, o querido site de crítica cultural, também. Você pode ir a uma biblioteca e ler toda a produção de jornais mortos há muito tempo, como o Los Angeles Herald Examiner ou o New York Newsday, mas que Deus o ajude se quiser ler artigos antigos da Vice. Os problemas sobre a propriedade do que um dia foi a Paramount resultaram na eliminação de décadas de programas da MTV e do Comedy Central.

O arquivo do Cartoon Network também desapareceu, assim como o Yahoo Groups, o Yahoo Respostas, grandes partes do serviço de fotos Imgur, as partes picantes do Tumblr que foram eliminadas em uma purga de pornografia, tudo o que aconteceu no Friendster e em outras redes sociais anteriores ao Facebook, o Club Penguin, o Neopets, o Geocities, a AOL e o Prodigy. Ou o Tuenti, na Espanha. Grandes extensões de videogames criados para sistemas já obsoletos são hoje lembranças inalcançáveis.

Os discos rígidos têm uma vida útil finita, e os que a indústria musical usou para armazenar nos anos 90, antes da transição para o formato digital, estão se deteriorando. O Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos é legalmente obrigado a preservar todos os registros médicos por 75 anos após a morte de um veterano, mas está tendo problemas, em parte devido a um sistema digital de registros defeituoso. E isso sem mencionar coisas como as fotografias pessoais, a maioria das quais agora só existe no seu telefone e em nenhum outro lugar.

Todos os e-mails que você enviou ou recebeu no seu último emprego, ou qualquer coisa que um familiar falecido tivesse em seu computador agora inutilizável? Essas são as coisas que nos fazem ser quem somos. Mesmo assim, eu o desafio a encontrá-las.

A Wayback Machine e o resgate da web

Por que é tão frustrante buscar qualquer coisa na internet:

Sempre há almas valentes que tentam resgatar pergaminhos de uma biblioteca em chamas. Mas é difícil resgatar algo que só existe em nível etéreo. «Se uma biblioteca pega fogo, é uma tragédia, mas a maioria dos livros sobrevive em outro lugar», observa Mark Graham, um renomado arquivista da internet. «Mas o mundo digital é inerentemente frágil e potencialmente efêmero», acrescenta.

Graham é o diretor da Wayback Machine, um projeto criado há décadas que busca coletar e guardar cópias digitais de páginas web para evitar que se percam. O Gawker? Sim, conseguiram preservar a maior parte. Sobre aquele estudo do Pew que mencionei antes, que dizia que mais de um terço da internet recente havia desaparecido, Graham explica o seguinte: «Quando repetimos o estudo usando os dados deles, descobrimos que cerca de dois terços desse material estavam guardados com segurança na Wayback Machine. Então, na realidade, só se perdeu um nono».

À medida que armazenamos nossas vidas em nossos dispositivos, estamos escolhendo ativamente criar enormes vazios em nosso registro histórico. É uma amnésia cultural autoinfligida.

A Wayback Machine arquiva automaticamente mais de 1 bilhão de URLs por dia. Também realiza uma manutenção constante das centenas de milhões de links nas 320 edições linguísticas da Wikipédia, que estão se perdendo a um ritmo de nada menos que 10.000 por dia. Recentemente, Graham trabalhou na preservação de 5.000 vídeos de um canal do YouTube dirigido por ativistas rohingyas, cujo povo foi submetido a um genocídio em 2017. «Eles nos pediram que os arquivássemos porque o YouTube elimina regularmente vídeos de sua plataforma. Nem sequer deixam os metadados, então não é possível saber qual conteúdo foi eliminado», comenta Graham. Acrescenta que conseguiu conservar todos os vídeos, exceto um, que tinha restrição de idade.

Normalmente, o maior obstáculo da Wayback Machine são os paywalls. A maioria dos artigos das revistas científicas do mundo, por exemplo, está amplamente disponível para qualquer pessoa com uma assinatura universitária. Mas os artigos são proibitivamente caros para o resto de nós, mesmo que nossos impostos tenham pago a pesquisa que eles descrevem. Um arquivo não é realmente um arquivo se não for acessível a todos.

A IA como nova ameaça aos arquivos

E atualmente existe uma nova ameaça ao arquivamento da nossa história: a inteligência artificial. Quando os sites não querem permitir que a IA absorva seu conteúdo, bloqueiam um certo tipo de bot rastreador digital, o mesmo tipo que a Wayback Machine usa. «Isso aconteceu quase da noite para o dia», observa Graham. A IA, com sua fome insaciável de dados de treinamento, não consegue acessar muitas páginas. Mas os arquivistas também não. Como consequência do surgimento da inteligência artificial, vai desaparecer mais inteligência, paradoxalmente.

Sejamos claros: isso vai além do desaparecimento de algumas matérias jornalísticas ou do conteúdo do seu quadrinho favorito. O que um arquivo é capaz de conservar, até os formatos que cabem em seus arquivos ou bancos de dados, determina literalmente o que é lembrado. Se você preserva, por exemplo, registros bancários do século XVIII, mas não moldes de costura, vai esquecer muita gente. De maneira semelhante, se o seu arquivo digital conserva apenas os registros de empresas lucrativas —porque as que faliram acabam destruindo seus servidores— você perde a memória de tudo aquilo por que essas empresas extintas trabalharam. E o que se lembra do passado determina o que podemos fazer no presente. «A sociedade é memória. Quando você perde essa memória, o que isso implica?», resume Marlene Manoff, que foi estrategista principal de coleções nas bibliotecas do MIT.

Selfies, pesca esportiva e a linha de base cambiante

Os discos rígidos ilegíveis e os links que desaparecem não são as únicas ameaças ao registro histórico. Pense nas selfies. Há quinze anos, uma pesquisadora do Instituto Scripps de Oceanografia chamada Loren McClenachan queria saber se a pesca comercial excessiva e as mudanças ambientais estavam tornando os peixes menores. Para isso, revisou cinco décadas de fotos das capturas vencedoras de competições de pesca esportiva em Key West, na Flórida. Descobriu-se que a empresa de barcos de pesca que organizava as competições havia guardado todas as fotografias físicas, a maioria com a data escrita à mão no verso.

Armada com esses arquivos, McClenachan pôde demonstrar que, na última metade do século, os tamanhos das capturas premiadas haviam diminuído em mais de 50%. Nenhum desses dados estaria disponível se todos os pescadores tivessem guardado os registros de suas capturas em seus telefones. Em vez disso, estaríamos sujeitos ao que se conhece como «síndrome da linha de base cambiante», a suposição comum de que o que é normal hoje também foi no passado.

À medida que a internet desaparece e armazenamos nossas vidas em nossos dispositivos, estamos escolhendo ativamente criar enormes vazios em nosso registro histórico. É uma amnésia cultural autoinfligida, agravada pelo fato de que boa parte da web está nas mãos de grandes corporações que dão pouco valor à preservação. «A longo prazo, não é possível preservar um objeto digital em sua forma original», afirma Manoff, a ex-bibliotecária do MIT. «Mas, no caso da propriedade corporativa, a probabilidade de uma gestão responsável de longo prazo do conteúdo digital, em qualquer forma, torna-se cada vez mais improvável», acrescenta.

A Idade das Trevas, como os historiadores costumavam chamar a época dos primeiros séculos da Europa medieval, durou 500 anos. Nossa versão digital poderia não ter fim. Uma sociedade pós-alfabetizada deixa exatamente a mesma marca no mundo que uma pré-alfabetizada. Ou seja, praticamente nenhuma.

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Tradução de Cristina Gálvez

Comentários do Diretor do Laboratório, Dr. Ricardo Petrissans (em itálico)

Fonte original: Business Insider España · Adam Rogers (traducción de Cristina Gálvez)