Entre trincheiras e gabinetes: Palantir a serviço do Estado

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Autor: DR. Ricardo Petrissans

Profissional universitário com ampla experiência em diversas áreas de atuação, incluindo gestão empresarial, desenvolvimento de pessoas, atividade acadêmica e criação e engenharia de projetos voltados para o desenvolvimento profissional e a educação.

Estados e tecnologia | Tecno-feudalismo

16 Nov, 2025

16 Nov, 2025

A bordo de um C-130 que sobrevoa a província de Helmand, um capitão de infantaria revisa relatórios impressos às pressas. Cada página traz um código QR: ao escaneá-lo, seu tablet abre um mapa onde estradas empoeiradas piscam em vermelho, amarelo ou verde conforme a probabilidade de artefatos explosivos improvisados.

Quem dá cor a essas rotas não veste uniforme. Trabalha a milhares de quilômetros, em um escritório comum em Denver, e se conecta à mesma base de dados que alimenta as tropas. Por trás da tela há uma plataforma chamada Gotham; por trás de Gotham, uma pergunta: quanto poder um Estado deve delegar à pontuação algorítmica da guerra?

O batismo de fogo: Afeganistão

Os primeiros contratos da Palantir com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos pareciam modestos: licenças-piloto para ajudar analistas forenses a encontrar padrões em explosões de IEDs. Em 2010, porém, Gotham já era implantado perto do campo, ingerindo registros de patrulha, relatórios de incidentes e comunicações interceptadas para antecipar onde o perigo poderia surgir.

As previsões não eram oráculos infalíveis, mas obrigavam rotas e horários a serem reconsiderados. A plataforma se tornou parte do planejamento operacional no Afeganistão e depois no Iraque: intangível, mas presente na forma como decisões eram tomadas.

De Mosul a Los Angeles

Em 2016, a batalha por Mosul testou a flexibilidade do software. Vídeos de drones, nomes de ruas, mapas de infraestrutura e relatórios de campo podiam ser sobrepostos em uma única imagem operacional. Gotham funcionava como um cérebro híbrido, absorvendo o caos urbano e devolvendo rotas com menor risco colateral.

Essa mesma lógica também migrou para o policiamento doméstico. Em Los Angeles, programas de policiamento preditivo usaram sistemas de dados para identificar zonas quentes e perfis de risco. Grupos de liberdades civis criticaram os projetos, argumentando que ferramentas nascidas para a guerra podem distorcer o policiamento comunitário quando usadas sem transparência e responsabilidade.

Inteligência interagências

Em salas de segurança nacional, o mesmo grafo pode exibir fluxos logísticos, movimentos financeiros, conversas interceptadas com autorização judicial, indicadores de ciberataques e dados de saúde pública. Um alto funcionário pode mudar camadas com um dedo, passando do narcotráfico para ransomware ou pandemias.

O problema é que muitos tomadores de decisão não compreendem o código que prioriza uma pista sobre outra. Confiam nos briefings e na trilha de auditoria, mas a responsabilidade democrática exige mais do que confiança em uma tela.

Saúde, fronteiras e guerra

Durante a crise da COVID-19, plataformas de dados foram usadas para coordenar capacidade hospitalar, equipamentos de proteção, telemetria de ambulâncias e cadeias de suprimento. Defensores afirmaram que isso salvou vidas; críticos responderam que a utilidade em emergência não apaga preocupações sobre armazenar dados sensíveis de saúde em sistemas privados.

Na fiscalização migratória, ferramentas ligadas à Palantir foram criticadas por conectar bases de detenção, registros de habilitação e informações de redes sociais. Na Ucrânia, sistemas da empresa teriam ajudado a fundir imagens de satélite, vídeos de drones e inteligência de fontes abertas em ciclos operacionais mais rápidos. Cada caso mostra o mesmo padrão: dados dispersos se transformam em mapa de ação.

Transparência, dependência e ética

Reguladores europeus e organizações da sociedade civil pressionam por maior supervisão de sistemas usados por forças de segurança e defesa. A Palantir argumenta que abertura total poderia expor táticas a adversários. Críticos respondem que caixas-pretas são incompatíveis com controle democrático.

Também existe a questão da dependência. Se um Estado constrói capacidades críticas sobre uma plataforma privada, o que acontece se preços sobem, licenças mudam ou o acesso é interrompido durante uma crise? O lock-in estratégico não é apenas econômico; pode se tornar tático.

Conclusão

A Palantir transforma dados dispersos em mapas de ação. Os benefícios são visíveis: menos pontos cegos operacionais, logística mais rápida, melhor coordenação. Os riscos também são visíveis: opacidade, dependência, preocupações com direitos civis e a tentação de deixar um grafo falar mais alto que o julgamento humano.

A pergunta já não é se os Estados usarão esse tipo de plataforma. A verdadeira questão é em que condições poderão continuar usando-a sem comprometer o delicado pacto entre segurança e liberdade.

Autor: DR. Ricardo Petrissans

Autor: DR. Ricardo Petrissans

Profissional universitário com ampla experiência em diversas áreas de atuação, incluindo gestão empresarial, desenvolvimento de pessoas, atividade acadêmica e criação e engenharia de projetos voltados para o desenvolvimento profissional e a educação.

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