O recém-laureado com o Prêmio Nobel de Economia, Daron Acemoglu, pensava como a maioria das pessoas: que a inteligência artificial, assim como outros avanços tecnológicos, tinha chegado para melhorar a vida de todos.

No entanto, depois de estudar com cuidado as consequências de outros avanços tecnológicos, ele chegou à conclusão de que a IA pode acabar prejudicando uma grande parte da sociedade.

Acemoglu descobriu que os robôs destruíam postos de trabalho e baixavam os salários. «Isso abriu meus olhos. As pessoas achavam que não seria possível que os robôs tivessem efeitos tão negativos», diz.

Acemoglu descobriu que os robôs destruíam postos de trabalho e baixavam os salários. «Isso abriu meus olhos. As pessoas achavam que não seria possível que os robôs tivessem efeitos tão negativos», diz. Simon Simard.

Sim, há alguns malucos que acreditam que a IA vai acabar com a raça humana. Mas, desde a explosiva aparição do ChatGPT no inverno passado, a maior preocupação para a maioria de nós tem sido saber se essas ferramentas logo escreverão, programarão, analisarão, darão ideias, comporão, desenharão e nos deixarão sem emprego. Diante disso, o Vale do Silício e as grandes empresas se mostraram curiosamente unidos em seu otimismo. Sim, talvez algumas pessoas saiam perdendo, dizem. Mas não há motivo para alarme. A IA nos tornará mais produtivos, e isso será bom para a sociedade. Em última instância, a tecnologia sempre é.

Como jornalista que há anos escreve sobre tecnologia e economia, eu também me mostrei otimista. Afinal, eu estava amparado por um surpreendente consenso entre os economistas, que normalmente não se entendem nem sobre coisas tão básicas quanto o que é o dinheiro. Durante meio século, os economistas veneraram a tecnologia como uma força inequivocamente positiva. Normalmente, segundo a «ciência sombria», dar a uma pessoa uma fatia maior do bolo econômico exige dar uma fatia menor ao otário ao lado. Mas, para os economistas, a tecnologia era diferente. Você inventa a máquina a vapor, o automóvel ou o TikTok e, pronto, como por mágica, o bolo cresce, permitindo que todo mundo desfrute de uma fatia maior.

«Os economistas viam a mudança tecnológica como algo assombroso», afirma Katya Klinova, responsável por IA, trabalho e economia da organização sem fins lucrativos Partnership on AI. «Quanto precisamos? O máximo possível. Quando? Ontem. Onde? Em toda parte». Resistir à tecnologia era invocar a estagnação, a pobreza, a escuridão. Inúmeros modelos econômicos, assim como toda a história moderna, pareciam demonstrar uma equação simples e irrefutável: tecnologia = prosperidade para todos.

Só há um problema com essa formulação: ela está se revelando errada. E o economista que mais está soando o alarme (o herege que sustenta que a trajetória atual da IA tem muito mais probabilidade de nos prejudicar do que de nos ajudar) é talvez o principal especialista mundial nos efeitos da tecnologia sobre a economia.

Daron Acemoglu, economista do MIT, é tão prolífico e respeitado que há tempos era considerado um dos principais candidatos ao Prêmio Nobel de Economia, que finalmente levou em 2024. Acemoglu também costumava ser otimista em relação à tecnologia. Mas agora, com seu velho colaborador Simon Johnson, Acemoglu escreveu um tratado de 546 páginas que derruba essa visão da Igreja da Tecnologia, demonstrando como a inovação costuma acabar sendo prejudicial para a sociedade.

Poder e Progresso: a tecnologia não reparte sozinha seus benefícios

Em seu livro Poder e Progresso, Acemoglu e Johnson mostram uma série de grandes invenções ao longo dos últimos 1.000 anos que, ao contrário do que nos contaram, não melhoraram em nada, e às vezes até pioraram, a vida da maioria das pessoas. E, nos períodos em que os grandes avanços tecnológicos de fato levaram a um bem generalizado (os exemplos que os otimistas da IA citam), foi só porque as elites governantes foram obrigadas a compartilhar os benefícios da inovação. Foi a luta pela tecnologia, e não a tecnologia em si, que acabou beneficiando a sociedade.

«A prosperidade do passado não é resultado de nenhum ganho automático e garantido do progresso tecnológico. Somos beneficiários do progresso principalmente porque nossos predecessores fizeram o progresso funcionar para mais gente», escrevem Acemoglu e Johnson.

Hoje, neste momento de apogeu da IA, todo mundo se beneficiará do avanço, ou ele acabará sendo prejudicial para a sociedade? Ao longo de 3 conversas neste verão, Acemoglu me contou que o preocupa o fato de estarmos nos precipitando por um caminho que terminará em catástrofe. Ao seu redor, ele vê uma torrente de sinais de alarme, do tipo que, no passado, acabou favorecendo poucos em detrimento da maioria. O poder concentrado nas mãos de um punhado de gigantes da tecnologia. Tecnólogos, chefes e pesquisadores focados em substituir os humanos em vez de potencializá-los. Obsessão pela vigilância dos funcionários. Baixa sindicalização sem precedentes. Democracias enfraquecidas.

O que a pesquisa de Acemoglu mostra (o que a história nos diz) é que as distopias impulsionadas pela tecnologia não são uma raridade da ficção científica. Na realidade, são muito mais comuns do que se imagina.

«É muito provável que, se não corrigirmos o rumo, tenhamos um verdadeiro sistema de dois níveis. Um pequeno número de pessoas estará no topo (vai projetar e utilizar essas tecnologias) e um número muito grande de pessoas se dedicará apenas a trabalhos marginais, ou pouco significativos», opina Acemoglu. O resultado, teme ele, é um futuro de salários mais baixos para a maioria.

Acemoglu compartilha esses avisos funestos não para instar os trabalhadores a resistir por completo à IA, nem para nos resignar a contar os anos até nossa perdição econômica. O especialista vê a possibilidade de um resultado benéfico, mas só se os trabalhadores, os responsáveis políticos, os pesquisadores e talvez até alguns magnatas da tecnologia o conseguirem. Dada a rapidez com que o ChatGPT se espalhou no ambiente de trabalho (81% das grandes empresas pesquisadas já afirmam que estão usando a IA para substituir trabalho repetitivo), Acemoglu insta a sociedade a agir rápido. E a primeira tarefa é árdua: desprogramar todos nós do que ele chama de «tecnootimismo cego», propagado pela «oligarquia moderna». «Esta», diz, «é a última oportunidade para despertarmos».

De Istambul ao MIT: como Acemoglu chegou à tecnologia

Acemoglu, de 56 anos, vive com a mulher e os dois filhos em um subúrbio tranquilo e abastado de Boston (Massachusetts, Estados Unidos). Mas nasceu a 8.000 quilômetros dali, em Istambul (Turquia), em um país mergulhado no caos. Quando ele tinha três anos, os militares assumiram o controle do governo e seu pai, um professor de esquerda que temia pela família, queimou seus livros. A economia desmoronou sob o peso de uma inflação de três dígitos, de uma dívida esmagadora e de uma alta taxa de desemprego.

Quando Acemoglu tinha 13 anos, os militares detiveram e julgaram centenas de milhares de pessoas, torturando e executando muitas. Observando a violência e a pobreza ao redor, Acemoglu começou a se perguntar sobre a relação entre ditaduras e crescimento econômico, uma questão que não poderia estudar livremente se ficasse na Turquia. Aos 19 anos, foi estudar no Reino Unido. Com a curiosamente precoce idade de 25 anos, terminou o doutorado em Economia na London School of Economics.

Transferido para Boston para lecionar no MIT, Acemoglu não demorou a causar sensação no campo que havia escolhido. Até hoje, seu artigo mais citado, escrito com Johnson e outro antigo colaborador, James Robinson, aborda a questão que ele se colocava na adolescência: os países democráticos desenvolvem economias melhores do que as ditaduras? É uma pergunta enorme, difícil de responder, porque poderia ser que a pobreza levasse à ditadura, e não o contrário. Assim, Acemoglu e seus coautores empregaram uma solução engenhosa.

Analisaram as colônias europeias com altas taxas de mortalidade, nas quais a história demonstrou que o poder continuou concentrado nas mãos dos poucos colonos dispostos a enfrentar a morte e a doença, em contraste com as colônias de baixa mortalidade, nas quais uma maior afluência de colonos impulsionou os direitos de propriedade e os direitos políticos que frearam o poder do Estado. A conclusão: as colônias que desenvolveram o que passaram a chamar de instituições «inclusivas» (que fomentavam o investimento e impunham o Estado de direito) acabaram mais ricas do que suas vizinhas autoritárias.

Em seu ambicioso e extenso livro Por que as nações fracassam, Acemoglu e Robinson rejeitam a ideia de que fatores como a cultura, o clima e a geografia tornavam ricos uns países e pobres outros. O único fator que realmente importava era a democracia.

O livro foi um inesperado sucesso de vendas e os economistas o consideraram uma mudança de paradigma. Mas Acemoglu também seguia outra linha de pesquisa que o fascinava havia tempo: o progresso tecnológico. Como quase todos os colegas, começou sendo um tecnootimista descarado. Em 2008, publicou um livro didático para estudantes de pós-graduação que endossava a ortodoxia de que a tecnologia é sempre boa. «Eu seguia o cânone dos modelos econômicos e, em todos eles, a mudança tecnológica é o principal impulsionador do PIB per capita e dos salários. Não os questionava», reconhece Acemoglu.

Mas, à medida que pensava mais nisso, começou a se perguntar se haveria algo mais. O primeiro ponto de inflexão foi um artigo no qual trabalhou com o economista David Autor. Nele havia um gráfico surpreendente que traçava a renda dos homens americanos ao longo de 5 décadas, ajustada pela inflação. Durante os anos 60 e o início dos 70, os salários de todos aumentaram em paralelo, independentemente da escolaridade. Mas então, por volta de 1980, os salários de quem tinha diploma superior começaram a disparar, enquanto os dos formados no ensino médio e dos que haviam abandonado os estudos despencaram.

Algo estava piorando a vida dos americanos com menos estudos. Seria a tecnologia?

Automação: tarefas que se perdem e tarefas que se criam

Acemoglu tinha o palpite de que sim. Com Pascual Restrepo, um de seus alunos na época, começou a pensar na automação como algo que faz duas coisas opostas ao mesmo tempo: rouba tarefas dos humanos e cria outras novas. Segundo a teoria dele e de Restrepo, a situação dos trabalhadores depende em grande medida do equilíbrio entre essas duas ações.

Quando as novas tarefas criadas compensam as roubadas, os trabalhadores se saem bem: podem acessar novos empregos que normalmente são mais bem pagos do que os anteriores. Mas, quando as tarefas roubadas superam as novas, os trabalhadores deslocados não têm para onde ir. Em um trabalho empírico posterior, Acemoglu e Restrepo demonstraram que era exatamente isso que havia ocorrido. Durante as quatro décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os dois tipos de tarefas se equilibraram mutuamente. Mas, nas três décadas seguintes, as tarefas roubadas superaram as novas por uma ampla margem.

Em resumo, a automação foi nos dois sentidos. Às vezes foi boa e às vezes foi ruim.

Era a parte ruim que continuava sem convencer os economistas. Assim, Acemoglu e Restrepo, em busca de mais provas empíricas, concentraram-se nos robôs. O que encontraram foi assombroso: desde 1990, a introdução de cada robô reduziu o emprego em aproximadamente 6 pessoas, ao mesmo tempo em que os salários diminuíam. «Isso abriu meus olhos. As pessoas achavam que não seria possível que os robôs tivessem efeitos tão negativos», afirma Acemoglu.

Muitos economistas, agarrados à ortodoxia tecnológica, descartaram os efeitos dos robôs sobre os trabalhadores humanos como um «fenômeno transitório». No fim, insistiam, a tecnologia se mostraria boa para todos. Mas, para Acemoglu, esse ponto de vista parecia insatisfatório. Será que realmente se podia qualificar de «transitório» algo que vinha ocorrendo havia 3 ou 4 décadas? Segundo seus cálculos, os robôs haviam deixado sem trabalho mais de meio milhão de pessoas nos EUA.

Talvez, a longo prazo, os benefícios da tecnologia acabassem chegando à maioria das pessoas. Mas, como disse o economista John Maynard Keynes, «a longo prazo estamos todos mortos».

Acemoglu descobriu que os robôs destruíam postos de trabalho e baixavam os salários. «Isso abriu meus olhos. As pessoas achavam que não seria possível que os robôs tivessem efeitos tão negativos», diz.

Acemoglu descobriu que os robôs destruíam postos de trabalho e baixavam os salários. «Isso abriu meus olhos. As pessoas achavam que não seria possível que os robôs tivessem efeitos tão negativos».

Mil anos de história: da Idade Média à Revolução Industrial

Então Acemoglu se propôs a estudar o longo prazo. Em primeiro lugar, ele e Johnson percorreram o curso da história ocidental para ver se havia outras épocas em que a tecnologia não cumpria suas promessas. A recente era da automação seria, como muitos economistas supunham, uma anomalia?

Acemoglu e Johnson descobriram que não. Pensemos, por exemplo, na Idade Média, um período que costuma ser considerado um ermo tecnológico. Mas a Idade Média foi testemunha de uma série de inovações que incluíam arados pesados com rodas, relógios mecânicos, fiandeiras, técnicas mais inteligentes de rotação de culturas, a adoção generalizada de carrinhos de mão e um maior uso de cavalos. Esses avanços tornaram a agricultura muito mais produtiva. Mas a razão pela qual lembramos esse período como a Idade das Trevas é justamente que os avanços nunca chegaram aos camponeses que faziam o trabalho de verdade. Apesar de todos os avanços tecnológicos, eles trabalhavam mais horas, estavam cada vez mais desnutridos e provavelmente viviam menos.

Os excedentes criados pela nova tecnologia foram parar quase exclusivamente nas elites que ocupavam o topo da sociedade, como o clero, que usou sua nova riqueza para construir catedrais altíssimas e consolidar seu poder.

Ou pensemos na Revolução Industrial, que os tecnootimistas apontam alegremente como o principal exemplo dos benefícios da inovação. Na realidade, o primeiro e longo trecho da Revolução Industrial foi desastroso para os trabalhadores. A tecnologia que mecanizou a fiação e a tecelagem destruiu os meios de subsistência dos artesãos, entregando os trabalhos têxteis a mulheres e crianças não qualificadas, que recebiam salários mais baixos e praticamente não tinham poder de negociação. As pessoas que se amontoavam nas cidades para trabalhar nas fábricas viviam ao lado de fossas de dejetos humanos, respiravam ar contaminado pelo carvão e estavam indefesas diante de epidemias como a cólera e a tuberculose, que em muitas ocasiões acabaram com suas famílias. Também eram obrigadas a trabalhar mais horas enquanto a renda real estagnava. «Percorri as frentes de guerra da Península», lamentava Lord Byron diante da Câmara dos Lordes em 1812. «Estive em algumas das províncias mais oprimidas da Turquia; mas nunca, sob o mais despótico dos governos infiéis, contemplei uma miséria tão escabrosa quanto a que vi desde meu regresso, no coração mesmo de um país cristão».

Se o cidadão médio não se beneficiou, para onde foi toda a riqueza gerada pelas novas máquinas? Mais uma vez, foi açambarcada pelas elites: os industriais. «Normalmente, a tecnologia é controlada por um número bastante reduzido de pessoas que a utilizam principalmente em benefício próprio.

«Essa é a grande lição da história da humanidade», aponta Johnson.

Mas Acemoglu e Johnson reconhecem que a tecnologia nem sempre foi ruim: às vezes foi quase milagrosa. Na Inglaterra, durante a segunda fase da Revolução Industrial, os salários reais dispararam 123%. A jornada de trabalho média caiu para 9 horas, o trabalho infantil diminuiu e a expectativa de vida aumentou. Nos Estados Unidos, durante o boom do pós-guerra, de 1949 a 1973, os salários reais cresceram quase 3% ao ano, criando uma classe média estável. «Nunca houve, que se saiba, outra época de prosperidade tão rápida e compartilhada», escrevem Acemoglu e Johnson, remontando aos antigos gregos e romanos. São episódios como esses que fizeram os economistas acreditarem tão fervorosamente no poder da tecnologia.

O que separa os bons tempos tecnológicos dos maus? Essa é a questão central que Acemoglu e Johnson abordam em Poder e Progresso. Dois fatores, dizem, determinam o resultado de uma nova tecnologia. O primeiro é a natureza da própria tecnologia: se ela cria tarefas novas suficientes para os trabalhadores a ponto de compensar as que lhes tira.

A primeira fase da Revolução Industrial, afirmam, foi dominada pelas máquinas têxteis que substituíram as fiandeiras e tecelãs sem criar trabalho novo suficiente para elas, condenando-as a trabalhos não qualificados com salários mais baixos e piores condições.

Na segunda fase da Revolução Industrial, ao contrário, as locomotivas a vapor deslocaram os condutores de carroças, mas também criaram uma multidão de novos postos de trabalho para maquinistas, operários da construção, vendedores de passagens, porteiros e os gerentes que supervisionavam todos eles. Muitas vezes eram empregos altamente qualificados e bem remunerados. E, ao reduzir o custo do transporte, a máquina a vapor também ajudou a expandir setores como a indústria da fundição de metais e o comércio varejista, criando postos de trabalho nessas áreas também.

«O que a IA tem de especial é sua velocidade. É muito mais rápida do que as tecnologias anteriores. É onipresente. Vai ser aplicada praticamente em todos os setores. E é muito flexível»

O poder de negociação e a democracia

O segundo fator que determina o resultado das novas tecnologias é o equilíbrio de poder vigente entre os trabalhadores e seus chefes. Sem poder de negociação suficiente, sustentam Acemoglu e Johnson, os trabalhadores não conseguem obrigar seus chefes a compartilhar a riqueza que as novas tecnologias geram. E o que determina o grau de poder de negociação está estreitamente relacionado com a democracia.

As reformas eleitorais (impulsionadas pelo movimento operário cartista na Grã-Bretanha de 1830) foram fundamentais para que a Revolução Industrial passasse de ruim a boa. À medida que o direito ao voto se estendeu, o Parlamento se tornou mais receptivo às necessidades da população em geral, aprovando leis para melhorar a saúde, endurecer o combate ao trabalho infantil e legalizar os sindicatos.

O crescimento do trabalho organizado, por sua vez, lançou as bases para que os trabalhadores obtivessem de seus chefes salários mais altos e melhores condições de trabalho em decorrência das inovações tecnológicas, junto com garantias de requalificação profissional quando as novas máquinas ocupassem seus antigos postos de trabalho.

Em tempos normais, essas reflexões poderiam parecer puramente acadêmicas, mais um debate sobre como interpretar o passado. Mas há um ponto em que tanto Acemoglu quanto a elite tecnológica que ele critica concordam: hoje estamos no meio de outra revolução tecnológica, com a IA.

«O que a IA tem de especial é sua velocidade. É muito mais rápida do que as tecnologias anteriores. É onipresente. Vai ser aplicada praticamente em todos os setores. E é muito flexível. Tudo isso significa que o que se está fazendo agora com a IA pode não ser o correto e, se não for, se for tomada uma direção prejudicial, pode se espalhar muito rapidamente e se tornar dominante. Então acho que há muita coisa em jogo», acredita Acemoglu.

A inteligência artificial destruirá muito mais postos de trabalho do que qualquer um imagina

Inteligência Artificial:

Acemoglu reconhece que suas opiniões estão muito longe do consenso em sua profissão. Mas há indícios de que seu pensamento está começando a ter um impacto mais amplo na batalha de opiniões sobre a IA. Em junho, Gita Gopinath, número dois do Fundo Monetário Internacional, fez um discurso no qual instava o mundo a regular a IA de modo que beneficiasse a sociedade, citando Acemoglu. Klinova, da Partnership on AI, afirma que altos executivos dos principais laboratórios de IA leem e comentam o trabalho dele. E Paul Romer, que ganhou o Prêmio Nobel em 2018 por um trabalho que demonstrou o quanto a inovação é crucial para o crescimento econômico, diz que passou por uma mudança de pensamento própria, que reflete a de Acemoglu.

«Foi uma ilusão dos economistas, entre os quais me incluo, que queriam acreditar que as coisas dariam certo naturalmente. O que cada vez mais tenho claro é que não é assim. É óbvio, a posteriori, que há muitas formas de tecnologia que podem fazer muito mal, e também muitas que podem ser enormemente benéficas. O problema é ter alguma entidade que atue em nome da sociedade como um todo e diga: ‘Façamos as que são benéficas, não façamos as que são prejudiciais’», aponta Romer.

Romer elogia Acemoglu por desafiar a opinião generalizada. «Eu o admiro de verdade, porque é fácil ter medo de se afastar demais do consenso. Daron é corajoso por estar disposto a testar novas ideias e persegui-las sem se importar com o que os outros pensam. Há agrupamento demais em torno de um conjunto estreito de pontos de vista possíveis, e realmente temos de nos manter abertos a explorar outras possibilidades», acrescenta.

No início deste ano, algumas semanas antes dos demais, uma iniciativa de pesquisa organizada pela Microsoft deu a Acemoglu acesso antecipado ao GPT-4. Enquanto o testava, surpreendiam-no as respostas que obtinha do bot. «Toda vez que eu mantinha uma conversa com o GPT-4, ficava tão impressionado que no fim dizia: ‘Obrigado’. Sem dúvida, vai além do que eu teria achado factível há um ano. Acho que mostra um grande potencial para fazer um monte de coisas», conta.

Mas os primeiros experimentos com a IA também o fizeram descobrir seus defeitos. Ele não acredita que estejamos perto do momento em que o software poderá fazer tudo o que os humanos fazem, um estado que os cientistas da computação chamam de inteligência artificial geral. Por consequência, ele e Johnson não preveem um futuro de desemprego em massa. As pessoas continuarão trabalhando, mas com salários mais baixos. «O que nos preocupa é que as habilidades de um grande número de trabalhadores serão muito menos valiosas. Então a renda deles não se manterá», reflete.

O interesse de Acemoglu pela IA é muito anterior à popularidade do ChatGPT. Em parte, graças à sua mulher, Asu Ozdaglar, que dirige o departamento de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação do MIT. Graças a ela, recebeu uma educação precoce em aprendizado de máquina, que estava possibilitando que os computadores realizassem um leque maior de tarefas. À medida que se aprofundava na automação, começou a se perguntar sobre seus efeitos não só nos trabalhos de fábrica, mas também nos de escritório.

«Os robôs são importantes, mas quantos operários ainda nos restam? Se você tem uma tecnologia que automatiza o trabalho do conhecimento, o trabalho de escritório vai ser muito mais importante para essa próxima etapa da automação», afirma.

Trabalho de escritório, substituição e paridade humana

Em teoria, é possível que a automação acabe sendo boa para os trabalhadores de escritório. Mas, neste momento, Acemoglu se preocupa que ela acabe sendo negativa, porque a sociedade atual não apresenta as condições necessárias para garantir que as novas tecnologias beneficiem a todos. Em primeiro lugar, devido a um ataque de décadas contra o trabalho organizado, apenas 10% da população ativa é sindicalizada nos EUA, um mínimo histórico.

Sem poder de negociação, os trabalhadores não poderão opinar sobre como as ferramentas de IA são implementadas no trabalho, nem sobre quem compartilha a riqueza que elas criam. E, em segundo lugar, anos de desinformação enfraqueceram as instituições democráticas, uma tendência que provavelmente vai piorar com as ferramentas de deepfake.

Além disso, Acemoglu se preocupa que a IA não esteja criando trabalhos novos suficientes para compensar os que está eliminando. Em um estudo recente, descobriu que as empresas que contrataram mais especialistas em IA durante a última década contrataram menos pessoal no geral. Isso sugere que, mesmo antes da era ChatGPT, os empresários utilizavam a IA para substituir seus trabalhadores por software, em vez de usá-la para tornar os humanos mais produtivos, como já haviam feito com formas anteriores de tecnologias digitais.

As empresas, claro, sempre defendem cortar custos e obter lucros no curto prazo. Mas Acemoglu também culpa o campo da pesquisa em IA pela ênfase na substituição de trabalhadores. Os cientistas da computação, observa, julgam suas criações de IA vendo se seus programas conseguem alcançar a «paridade humana», isto é, completar certas tarefas tão bem quanto as pessoas.

«Para o pessoal do setor e do ecossistema em geral, julgar essas novas tecnologias por sua capacidade de se parecer com os humanos tornou-se algo natural. Isso cria um caminho muito natural para a automação e a réplica do que os humanos fazem, e muitas vezes sem dar atenção suficiente a como elas podem ser mais úteis para os humanos com habilidades muito diferentes das dos computadores», argumenta Acemoglu.

Acemoglu continua explicando que criar ferramentas que sejam úteis para os trabalhadores humanos, em vez de ferramentas que os substituam, beneficiaria não só os trabalhadores, mas também seus chefes. Por que concentrar tanta energia em fazer algo que os humanos já conseguem fazer razoavelmente bem, quando a IA poderia nos ajudar a fazer o que nunca tínhamos conseguido?

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Traduzido para o espanhol por Cristina Gálvez

Fonte original: Business Insider España · Aki Ito (traducción de Cristina Gálvez)