O mundo ainda não está preparado para os riscos que a Inteligência Artificial trará.

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group e da GZERO Media e autor de “The Power of Crisis”, desenvolve sua perspectiva sobre a Inteligência Artificial. Neste blog, registramos nas semanas e nos dias anteriores diferentes pontos de vista sobre o tema. Complementamos esses pontos de vista com uma das visões mais lúcidas sobre a questão, a de Ian Bremmer, em sua coluna de opinião no Nikkei Asia (Japão). Os princípios defendidos por Bremmer são “é preciso enfrentar a desinformação, a proliferação, o deslocamento e a substituição”.

Ao longo da história, os avanços tecnológicos criaram novas oportunidades de invenção, adaptação e progresso, ao mesmo tempo que infligiram danos irreversíveis a muitas vidas e meios de subsistência. Puseram à prova a notável capacidade de seres humanos e sociedades de se adaptar à turbulência da transição e de sobreviver ao que os economistas chamam de «destruição criativa».

O mundo agora deve se preparar para um avanço tecnológico cujas implicações serão enormes e que já começam a se desenrolar a uma velocidade que assustou até os homens e mulheres que passaram a vida profissional lançando as bases desse transtorno.

A inteligência artificial transformará nossas vidas, para o bem ou para o mal, de forma tão profunda e tão rápida que não temos outra opção a não ser preparar a nós mesmos e aos outros para as consequências.

Sem dúvida, haverá avanços médicos e científicos que transformarão o trabalho de décadas em trabalho de dias. Quem tiver acesso às ferramentas de IA mais poderosas terá a oportunidade de viver vidas mais longas, saudáveis e prósperas do que os seres humanos jamais experimentaram.

Mas também há riscos sobre os quais precisamos pensar e para os quais precisamos nos preparar.

Desinformação e propaganda digital

Entre os mais importantes está a desinformação. Sem cidadãos, consumidores e investidores que tenham acesso contínuo a informações precisas e verificáveis, não pode haver democracia nem capitalismo de livre mercado.

O advento das redes sociais e a maré de informação distorcida que elas geram já envenenaram as atitudes do público em relação a instituições de todo tipo. A incorporação da IA acrescentará um vasto coro de vozes não humanas pré-programadas às conversas que dão forma à vida política em todos os países do mundo.

A facilidade com que atores políticos mal-intencionados, criminosos e terroristas podem criar ilusões em vídeo capazes de enganar até o espectador mais sofisticado tornará muito mais difícil para líderes políticos e para quem divulga as notícias construir e manter credibilidade.

China, Rússia e outros Estados autoritários desenvolverão formas mais eficazes de propaganda digital que minam a liberdade de maneira profunda e sem precedentes, e venderão essas tecnologias a qualquer governo disposto a pagar por elas.

Mas a desinformação é apenas uma das muitas aplicações malignas da IA.

Uma tecnologia democratizada e difícil de vigiar

Nos últimos anos, o problema tecnológico que mais ocupou o debate político em muitos Estados democráticos foi a coleta de dados da atividade on-line dos cidadãos e seu impacto sobre a privacidade.

Mas a inteligência artificial é uma tecnologia democratizada. As poderosas empresas de tecnologia que passaram a dominar nossa vida on-line podem estabelecer regras e diretrizes para o uso dos produtos que criam. Até certo ponto, podem fazer com que essas regras sejam cumpridas.

No entanto, modelos de IA quase tão avançados quanto, e mais poderosos do que, os algoritmos de uso geral de poucos meses atrás já estão disponíveis para qualquer pessoa com conhecimentos mínimos de programação e um notebook. Várias pessoas que conheço agora estão executando seus próprios modelos de linguagem de grande porte, usando informações publicamente disponíveis para produzir grandes quantidades de texto.

Em um campo com cultura de código aberto e pouquíssimas barreiras de entrada, essa disponibilidade se espalhará por toda parte, rápida e facilmente. Milhões de pessoas logo terão seus próprios transformadores generativos pré-treinados, como o ChatGPT, rodando sobre dados em tempo real disponíveis na internet.

Será uma ferramenta poderosa que as pessoas poderão usar para criar coisas úteis que abram terreno científico e artístico. Também será uma arma que atores políticos desonestos, criminosos e terroristas poderão usar para programar malware, criar armas biológicas, manipular os mercados e envenenar a opinião pública.

É verdade que as autoridades poderão implementar IA para criar ferramentas mais eficazes de monitoramento desses crimes, mas os governos nunca enfrentaram uma ameaça tão difusa.

Deslocamento em massa de trabalhadores

O deslocamento em massa é um terceiro risco que deve ser levado em conta.

Sabemos que a explosão da inteligência artificial deslocará um número incalculável de trabalhadores à medida que as máquinas substituírem as pessoas, inclusive nos setores do conhecimento, em uma escala que a maioria de nós, até pouco tempo atrás, acreditava ser impossível.

É verdade que já vimos tais turbulências antes. Mais recentemente, o aumento do comércio mundial nas últimas décadas acabou com milhões de empregos na indústria de transformação em países onde os trabalhadores ganhavam salários relativamente altos, ao catalisar uma mudança da produção industrial para os países em desenvolvimento. A automação também deslocou os empregos da indústria em geral.

Em ambos os casos, essas disrupções tecnológicas geraram produtividade e riqueza muito maiores em nível mundial e, com o tempo, criaram mais empregos do que destruíram. Mas é preciso tempo e recursos para requalificar os trabalhadores e estabelecer redes de proteção social sustentáveis para quem não consegue se adaptar.

O deslocamento provocado pela expansão da Inteligência Artificial afetará mais trabalhadores em mais lugares, e muito mais rápido, do que qualquer ruptura no ambiente de trabalho que o mundo já tenha visto. Essa revolução no local de trabalho criará uma agitação econômica e política em uma escala que os governos nacionais e as instituições multinacionais não estão preparados para administrar.

Relações com máquinas e saúde mental

Por fim, há o aspecto mais pessoal da revolução da IA. Os humanos logo se acostumarão muito mais à comunicação direta com máquinas do que com outras pessoas. Em vez de recorrer a bots simples para previsões do tempo, confiaremos em máquinas complexas movidas a IA para interações complexas e até para companhia.

Já sabemos que o uso excessivo das redes sociais pode produzir ansiedade, depressão e até automutilação em adolescentes e adultos isolados. Esse problema está prestes a ficar muito maior à medida que mais pessoas com tendências antissociais estabelecerem relações com máquinas cada vez mais sofisticadas. Esse será o desafio mais profundo da IA, e é aquele para o qual os formuladores de políticas estão menos preparados.

Nada nos separa dos riscos derivados da IA, exceto obstáculos técnicos e tempo facilmente solucionáveis. Cada um deles terá de ser enfrentado dentro das famílias e das comunidades, entre os tomadores de decisão dos setores público e privado e além das fronteiras. Mas a revolução da IA já começou.

TRADUÇÃO DA EQUIPE DE PESQUISA DO LABORATÓRIO DO FUTURO

Fonte original: Nikkei Asia · Ian Bremmer