Artigo 8
A proposta final de Gates é a mais ambiciosa: um novo marco de governança global para a IA, comparável à reorganização do governo dos Estados Unidos após o 11 de Setembro, mas muito mais amplo. No entanto, Gates reconhece que a política avança lentamente enquanto a IA avança rápido. O resultado é um descompasso trágico. Podemos imaginar uma governança que não dependa dos Estados, mas que surja de baixo para cima, da sociedade civil e das comunidades técnicas?
Gates conclui seu manifesto com um chamado à ação global: “Esta tecnologia sem precedentes exige uma resposta global sem precedentes”. Ele propõe criar instituições nacionais que coordenem as políticas de IA entre os diferentes ministérios (trabalho, segurança, educação, energia etc.) e, em paralelo, uma organização internacional que funcione como equivalente à AIEA para a IA.
O limite da analogia com a AIEA
A analogia é adequada, mas também revela seus limites. A AIEA foi criada no contexto da Guerra Fria, quando duas superpotências compartilhavam um interesse mínimo em evitar a aniquilação mútua. Esse interesse comum permitiu alguns acordos. Hoje, a rivalidade entre Estados Unidos e China é sistêmica, não apenas ideológica, e abrange todas as áreas. Não há um interesse comum claro em frear a IA; na verdade, cada um vê a corrida pela IA como um jogo de soma zero, em que quem chega primeiro controla o futuro.
A geopolítica da IA.
Gates menciona a necessidade de cooperação entre Estados Unidos e China, mas não diz como superar os obstáculos. O primeiro considera a IA sua vantagem tecnológica e militar; o segundo, sua oportunidade de superar o Ocidente. Ambos estão investindo centenas de bilhões no desenvolvimento da IA, e ambos têm programas de armas autônomas. Nesse contexto, um acordo de não proliferação parece improvável.
Além disso, os países da União Europeia, que poderiam atuar como uma “terceira via” regulatória, têm menor capacidade tecnológica e estão mais concentrados na regulação (a conhecida abordagem baseada em riscos). Mas, sem poder tecnológico, a regulação pode ser ignorada ou contornada. A UE pode multar as grandes empresas de tecnologia, mas não pode impedir que desenvolvam modelos mais avançados em outros lugares.
A corrida pela inovação como obstáculo.
Gates reconhece que “os incentivos geopolíticos e econômicos empurram todos em velocidade máxima”. Essa é a realidade que invalida qualquer proposta de freio. A lógica do capitalismo de plataformas, somada à lógica da segurança nacional, cria um círculo vicioso: cada país teme que o outro saia na frente e, por isso, acelera. E, quando todos aceleram, o resultado é uma catástrofe de coordenação.
Saídas possíveis para a armadilha da aceleração
A única forma de sair dessa armadilha é um “acordo de paz” tecnológico, semelhante em alguns aspectos ao que pôs fim à corrida armamentista nuclear. Mas esse acordo exigiu décadas de crises, e o risco da IA é mais difuso e menos visível (uma guerra nuclear é imediata; o dano causado pela IA é incremental e sistêmico).
A imaginação política: governança de baixo para cima.
Se a governança estatal e global é improvável, talvez a solução não venha de cima, mas de baixo. A história da internet mostra que padrões técnicos e protocolos éticos podem surgir de comunidades de prática antes dos Estados. O TCP/IP, protocolo que permite o funcionamento da internet, foi criado por pesquisadores e se difundiu por sua utilidade, não por decreto governamental.
Da mesma forma, poderiam surgir padrões de “IA ética” promovidos por universidades, ONGs e empresas responsáveis. Um selo de “IA confiável” poderia ter o mesmo efeito que as certificações ambientais. Se consumidores e investidores começarem a exigir transparência e equidade, as empresas serão pressionadas a cumprir esses critérios, mesmo sem uma lei.
Mas essa abordagem tem um limite: atores mal-intencionados e Estados autoritários não se submeterão a padrões voluntários. A IA é uma arma de uso duplo, e quem quiser usá-la para o mal não pedirá permissão.
O papel da sociedade civil.
Ao final de seu manifesto, Gates faz um chamado para ampliar o círculo de participantes: trabalhadores, estudantes, líderes comunitários e religiosos, pais e educadores. É o reconhecimento de que a governança da IA não pode ser assunto apenas de tecnocratas e CEOs. Mas soa como um apelo, mais um desejo do que um programa.
A sociedade civil precisa se organizar, pressionar e se mobilizar. Na história recente, o movimento climático conseguiu colocar o tema na agenda, embora os governos fossem reticentes. Um movimento por “justiça da IA” poderia ter efeito semelhante, exigindo moratórias, transparência e participação democrática no projeto dos sistemas.
O tempo como inimigo.
Gates repete várias vezes: não temos o luxo de avançar lentamente. A IA progride de forma exponencial, e as instituições se movem de forma linear. A diferença entre o ritmo tecnológico e o ritmo político é a verdadeira ameaça. Quando tivermos criado um marco regulatório, a tecnologia já o terá ultrapassado.
Uma regulação que acompanhe o ritmo da IA
Essa assimetria temporal exige soluções de “regulação adaptativa”: marcos que não tentem regular a tecnologia em si, mas seus impactos, e que possam ser atualizados rapidamente por meio de procedimentos ágeis. Algo como um “corpo de bombeiros” regulatório, capaz de responder aos incêndios em tempo real.
Conclusão final: a lucidez da impotência.
O manifesto de Gates é um documento de lucidez e impotência. Enxerga com clareza os perigos, as contradições e a urgência, mas não dispõe de uma alavanca política real para mudá-los. Sua proposta de uma nova governança global esbarra na realidade geopolítica; sua proposta fiscal, nos interesses estabelecidos; sua proposta de “reservas humanas”, no mercado.
Ainda assim, a lucidez não é pouca coisa. Em um mundo onde a maioria dos líderes nega ou banaliza os riscos, Bill Gates se levantar e dizer “isso é grave” tem valor incalculável. Seu manifesto é um espelho que nos devolve nossa própria incapacidade coletiva de agir. A pergunta que ele nos deixa não é “o que Gates fará?”, mas “o que faremos nós?”.
Porque a IA não espera, e a história não se escreve sozinha.
Bibliografia do artigo 8
- Gates, B. (2026). The turbulent AI era is here… Gates Notes.
- Kissinger, H., Schmidt, E. & Huttenlocher, D. (2021). The Age of AI: And Our Human Future. Little, Brown.
- Sanger, D. (2023). New Cold Wars. Crown.
- Nye, J. (2024). “AI and American Power.” Foreign Affairs.
- Lessig, L. (2006). Code: Version 2.0. Basic Books.
- Ostrom, E. (1990). Governing the Commons. Cambridge University Press.
- Floridi, L. (2023). The Ethics of Artificial Intelligence. Oxford University Press.




